TERRA ( BRASIL )

A semana da moda de Milão não desperta somente o interesse pelos desfiles e pelas tendências mostradas neles – aumenta ainda mais o desejo de quem está dentro ou fora do evento de consumir. Durante a semana de apresentação das novas coleções, o movimento nas lojas e o vai e vem de pessoas com bolsas de compras aumenta, turistas e italianos aproveitam para renovar o guarda-roupa. Porém, sobretudo as mulheres, são levadas ao consumo de impulso, isto é, passam na frente de uma vitrine e são atraídas pelas cores e novidades, o que resulta, muitas vezes, na compra errada.
Para evitar gastos e desperdício de dinheiro, com roupas que vão direto para o fundo do armário, muitas pessoas estão recorrendo a ajuda de quem realmente entende de compras, o personal shopper. Não é uma novidade, mas de uns anos para cá a figura desse profissional vem sendo muito requisitada em Milão, tanto por turistas quanto por italianos.
O personal shopper é “contratado” para acompanhar e aconselhar o cliente sobre o tipo de roupa que fica melhor para ele, levando em conta, principalmente, o seu perfil e tipo físico. Além disso, esse profissional conhece ótimas lojas, que não são badaladas como aquelas que se veem por toda parte e oferecem produtos de ótima qualidade.
Contratar um personal shopper em Milão pode parecer um privilégio para quem pensa em gastar muito, mas nada verdade não é. Os custos com o profissional não são altos e as compras são pensadas levando em conta quanto o cliente pensa em gastar.
O Terra conversou com Anna Maria Lamanna, que é personal shopper em Milão desde 2003 (dona da empresa Personal Shopper Milano), e trabalha no setor da moda desde 1994, onde conquistou grande experiência trabalhando como fashion coordenadora de importantes grifes italianas. Atualmente, costuma dedicar 4 dias da semana para atividade de personal shopper e muitas vezes precisa abrir mão dos finais de semana para atender turistas, clientela que é ainda maior nos meses de março e setembro (quando chegam as coleções novas) e em janeiro e julho (por causa das promoções). E durante eventos importantes, como a semana do móvel (em abril), a Fórmula 1 (em setembro em Monza) e agora durante a semana da moda.
Terra – Qual é o perfil das pessoas que procuram ajuda de um personal shopper?
Anna Maria Lamanna – A clientela que procura um personal shopper é muito variada. Vai do homem de negócios à mulher que está passando pela cidade por motivo de trabalho e que tem poucas horas para comprar roupas. Também pode ser a família que está viajando pela Itália e dedica alguns dias a Milão, que é mundialmente reconhecida como a capital italiana da moda ou quem passa um fim de semana na cidade com o objetivo de fazer compras com um personal shopper.
Você já teve clientes brasileiros? Eles demonstram algum tipo de interesse em particular?
A.M.L – Eu já tive clientes brasileiros que demostraram sobretudo interesse pelo verdadeiro “Made In Italy” e a escolha de produtos que tivessem um estilo 100% italiano.
Qual o conselho que você costuma dar para as suas clientes que não podem gastar muito?
A.M.L – Na minha opinião é possível vestir-se bem sem gastar muito. O conselho, porém, que dou sempre às minhas clientes, é de procurar preocupar-se mais com a qualidade do que com a quantidade. Em particular, para determinadas roupas e acessórios (casacos, bolsas e sapatos), que devem ter um tempo de uso longo, que não estraguem em uma única estação. Meu conselho é dedicar a maior parte do budget para esse tipo de compra. Também é possível fazer bom negócio em lojas populares, nesse caso, é bom ficar de olho nos detalhes, principalmente nas costuras e no tipo de tecido.
É possível vestir-se seguindo as tendências sem deixar de lado o próprio estilo?
A.M.L – Na minha opinião é possível construir um look que seja fiel a si mesmo, porém que esteja sintonizado com as tendências do momento. O ideal é conseguir interpretar e personalizar aquelas que são as indicações naquele momento, transformando-as em próprias.
Que peças não podem faltar em um guarda-roupa feminino?
A.M.L – Eu acho que alguns roupas são “must have”, que toda mulher deveria ter: casaco blazer azul, camisa branca masculina, jeans blue stretch, tubinho preto de cocktail e camisa clássica preta e nude. Essas são as primeiras que me passam pela cabeça, mas com certeza a lista seria mais longa.
Na sua opinião, como uma mulher pode fazer uma boa compra?
A.M.L – Para se fazer uma boa compra é preciso ter as ideias o mais claras possíveis. O que está procurando, para qual ocasião e quais as cores. É um modo de evitar a perda de tempo de comprar coisas erradas.
Quando devemos “aposentar” uma peça de roupa?
A.M.L – Quando se vê que foi muito usado, está pequeno ou grande demais e respeitando o típico físico do momento.
Qual é o erro mais comum de quem faz compras compulsivas?
A.M.L – A ideia de comprar um total look visto em uma vitrine, acho que é melhor evitar. As pessoas são diferentes umas das outras e devem conseguir se expressar também através da “embalagem” que vestem a cada dia, aos olhos de nós mesmo e dos outros. A roupa deve nos representar da melhor maneira possível.
No Brasil, daqui a pouco começa o calor. Esquecendo as tendências e os desfiles, que conselho você daria pra uma brasileira que acabou de chegar em Milão e quer levar para casa uma bela roupa italiana?
A.M.L – Com certeza aconselharia levar uma peça que represente o melhor artesanato do nosso “Made In Italy”. Para o inverno de vocês, que nunca é muito frio, acho que seria legal comprar uma pashmina em cashmere suave, porque é uma acessório versátil e útil em muitas situações. Já para o verão, um foulard estampado em seda.
Agora falando da semana da moda. Você acha que todas as produções que vemos em um desfile podem ser usadas?
A.M.L – Na verdade, nem todas as peças que nós vemos na passarela são depois destinadas ao consumidor final. Isso depende da política de venda de cada marca. Alguns estilistas fazem uma coleção inteiramente comercial, onde tudo o que foi visto na passarela pode ser produzido em escala industrial. Em outros casos, eles preferem dar ao público uma ideia ou tendência que, para se tornar uma peça que poderá ser vendida, é necessário fazer algumas modificações e adequá-las.
Você que já trabalhou no mundo da moda e acompanhou e acompanha tantos desfiles, já viu uma roupa, que na sua opinião, não ficaria bem para nenhuma mulher?
A.M.L – Sinceramente, no passar dos anos, eu vi tantas roupas que me fizeram pensar “nenhuma mulher deveria nunca vestir essa peça”. E isso por diversos motivos, porém o principal é porque eram muito desconfortáveis.
Normalmente, as roupas que vemos em um desfile têm um preço acessível a um pequeno grupo de pessoas. É possível seguir as tendências gastando pouco?
A.M.L – Tudo aquilo que vemos na passarela depois vem copiado exatamente igual dos grandes distribuidores, que possuem tempo de produção muito rápido e eficiente. O preço muito inferior não é sinônimo de baixa qualidade, mas depende também da produção a nível industrial, que tendo números muito mais altos em relação ao pret a porter consegue, naturalmente, reduzir o custo de cada peça.